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(Perdoe minha hesitação, preciso encontrar o modo perfeito de início).
Amigo,
Sei que não está aqui, mas sinto sua presença a todo momento. Vejo seu apartamento branco pela janela, inabitado, e pergunto-me: o que faz agora?
Sei o que fazia antes. Tenho fotos em meu quarto, de quando você ainda pintava. Será que ainda pinta? Suas grandes telas coloridas e apaixonadas, cheias de tintas que se abriam em janelas para a mente. Buracos sem fundo e sem borda, no tamanho exato para os olhos curiosos que procuram sem achar.
(Encontrei suas fotos enquanto limpava os arquivos da mãe. Encontrei também seus quadros em um catálogo. Estão agora jogados na minha frente. Quando puder aparecer, irei mostrá-los).
Qual era sua sensação ao pintar? Ao se enfurnar em um quarto, acompanhado apenas da criação? Às vezes me pego assim, querendo ficar só comigo e com a poesia - e aí está você, sentado na janela. Talvez apenas me castigue pelas várias vezes que parei para observar-lhe, sugando um pouco da sua intimidade.
As coisas vão bem por aqui. (Não sei se agora devo mentir por casualidade ou jorrar-lhe toda a verdade por desespero).
As coisas não vão tão bem por aqui. Ando questionando mais do que o prescrito pelo doutor. Dicionários e enciclopédias não me fazem mais sentido - por mais que eu coloque os óculos fundo de garrafa com armações negras e grossas. Acabo ficando mais cega. Logo eu, que me orgulhava de minha visão 20x20.
Brindar de taças que se quebram ao fundo - ouve?
(Perceba que agora mudei de assunto. De vez em quando começo com isso de falar de mim mas, se paro para escutar, embrulha o estômago. Ouça as taças).
Conte-me mais das festas. Quero os detalhes de sua vida onde está. É de grande importância para mim e para a mãe. Ela não diz, mas você faz falta.
Falta é um buraco (como aqueles dos seus quadros) que se abre na alma e toma controle dos mais fracos. Que bom que a mãe é forte. Essa força toda que é só dela. Sei que te ajudou muito. Ajuda-me também!
Escrevo por saudades e por desamparo.
Explica-me: é possível sentir saudades do desconhecido? Você sente minha falta? É possível domar o desamparo da falta? Da insegurança? Do ser?
(Não sei se ficará óbvio, por isso digo: larguei a carta ao relento sem querer e, quando voltei, parecia que todas as letras tinham fugido. Por isso mudei de estilo: para prendê-las).
Uma dúvida corriqueira: às vezes, não me contenho em mim mesma. Sou capaz de explodir. Não sei se já passou por isso. Se sim, me dê dicas. A necessidade é infinita. (Sei que isso passa, mas até o passar, passa tempo demais).
Eu, que nunca me abracei, nunca contive uma explosão própria. Nunca na vida. Será isso dependência ou medo?
Paremos de falar de mim.
Aprendi com a mãe que é falta de educação falar só da gente. Falemos de você.
Ouvi histórias de quando ficou doente. Eventos que frequentava mesmo sem estar em condições, piadas que fazia sobre sua condição. Era fácil assim?
Não, que grosseria a minha, perguntar algo assim. Mas é que é tão incrível a forma como você lidou bem com esse pedaço de vida. Acho que a saboreou como uma fatia de bolo. Encheu a boca e comeu tudo enquanto pode, antes que fugisse de dentro do seu prato.
(Vou começar a caminhar para a conclusão. Enrolei até agora porque estou tão sozinha e desamparada que nossa conversa está sendo meu remédio).
Responda logo, mas não precisa ter pressa. A vida é longa demais para esperas.
Queira-me bem, como te quero.
Deseje-me sorte.
Saudades sem fim.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Clareira
Decidi dar um ultimo pulo na cachoeira antes de sair.
A água, dessa vez, me jorrava quente. Queimava-me em bordas pretas e estragava o banho-maria. Antes era assim?
Quando pequena, sempre passava por ali. Mesmo grande. Estava acostumada a pular de cabeça naquele poço sem fundo, redondo como ele só, capaz de engolir a luz do sol e transformá-la em frescor. Costumava entrar no mato com descaso, pés descalços, coração na mão. Se algo desse errado, era só jogar longe.
Caía em clareiras e dava em plantas grandes e formosas, novas e com seus frutos raros. Podia colher do bom e do melhor daquele mato que eu reinava. As coisas nunca tinham parecido tão simples.
Onde pisava, não me importava. Minhas solas já tinham crescido sem os sapatos, e lá ficavam, como cascas de árvore, protegendo tudo que era meu.
Tudo era meu.
Tudo era meu e, mesmo assim, nada. Porque eu, simplesmente, simples mente, não ligava. Era um cheio tão cheio, esse meu tudo de todas as coisas, que eu chamava de banal e optava pelo vazio. Talvez fosse a casca da árvore, mais uma vez, com toda a sua proteção.
Sempre seguia o mesmo caminho, o mesmo que sigo até hoje. Por ele, sei que posso ir segura. Certa vez, atravessei-o de olhos fechados, só para experimentar a sensação do escuro. Nesse ponto, sou que nem hoje: provando de tudo um pouco, sempre pulsando emoção. O "Novo".
Quando pequena, o banho era bom. Era bom no começo, no meio e no fim eu enjoava. Era tanta água, mas tanta água, que eu não aguentava mais. Engasgava, corria pra longe e sumia. Nunca me despedi da cachoeira naqueles tempos. E, se eu sumia, demorava a voltar.
Antes era assim. Não como agora.
Pulei ontem para não sair mais. Não sei o que me deu. Se a pedra que era estranha ou eu que estava diferente. O caminho que usei para chegar foi o mesmo, mas sei que não vou usá-lo para sair. Isso se eu sair daqui.
Minhas cascas de árvore racharam e viraram raízes contra meu gosto.
A água, dessa vez, me jorrava quente. Queimava-me em bordas pretas e estragava o banho-maria. Antes era assim?
Quando pequena, sempre passava por ali. Mesmo grande. Estava acostumada a pular de cabeça naquele poço sem fundo, redondo como ele só, capaz de engolir a luz do sol e transformá-la em frescor. Costumava entrar no mato com descaso, pés descalços, coração na mão. Se algo desse errado, era só jogar longe.
Caía em clareiras e dava em plantas grandes e formosas, novas e com seus frutos raros. Podia colher do bom e do melhor daquele mato que eu reinava. As coisas nunca tinham parecido tão simples.
Onde pisava, não me importava. Minhas solas já tinham crescido sem os sapatos, e lá ficavam, como cascas de árvore, protegendo tudo que era meu.
Tudo era meu.
Tudo era meu e, mesmo assim, nada. Porque eu, simplesmente, simples mente, não ligava. Era um cheio tão cheio, esse meu tudo de todas as coisas, que eu chamava de banal e optava pelo vazio. Talvez fosse a casca da árvore, mais uma vez, com toda a sua proteção.
Sempre seguia o mesmo caminho, o mesmo que sigo até hoje. Por ele, sei que posso ir segura. Certa vez, atravessei-o de olhos fechados, só para experimentar a sensação do escuro. Nesse ponto, sou que nem hoje: provando de tudo um pouco, sempre pulsando emoção. O "Novo".
Quando pequena, o banho era bom. Era bom no começo, no meio e no fim eu enjoava. Era tanta água, mas tanta água, que eu não aguentava mais. Engasgava, corria pra longe e sumia. Nunca me despedi da cachoeira naqueles tempos. E, se eu sumia, demorava a voltar.
Antes era assim. Não como agora.
Pulei ontem para não sair mais. Não sei o que me deu. Se a pedra que era estranha ou eu que estava diferente. O caminho que usei para chegar foi o mesmo, mas sei que não vou usá-lo para sair. Isso se eu sair daqui.
Minhas cascas de árvore racharam e viraram raízes contra meu gosto.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Fluoxetina
Viver é muito bom. Amar é muito bom. Comer é muito bom. Correr é muito bom.
Sorrir é muito bom. Querer é muito bom. Crescer é muito bom. Beijar é muito bom.
Piscar é muito bom. Viajar é muito bom. Voltar é muito bom. Sentir é muito bom.
Tocar é muito bom. Ouvir é muito bom. Falar é muito bom. Ver é muito bom.
Gritar é muito bom. Dormir é muito bom. Abraçar é muito bom. Ser é muito bom.
Desejar é muito bom. Chorar é muito bom. Respirar é muito bom. Fotografar é muito bom.
Atuar é muito bom. Conversar é muito bom. Lembrar é muito bom. Esquecer é muito bom.
Beber é muito bom. Voar é muito bom. Sumir é muito bom. Cair é muito bom.
Conhecer é muito bom.
Assistir é muito bom.
Escrever é muito bom.
Ajudar é muito bom.
Plantar, colher, construir, fazer, arar, soprar, cozinhar, jogar, debater.
Dividir, multiplicar, ler, ordenhar, acordar, nadar, pular. Defenestrar.
Abrir.
Fechar.
É bom demais.
Chover e ventar. Partir e quebrar.
Revelar.
Passear, confiar, compreender, se aquecer.
Esfriar.
Aplaudir.
Levantar.
Assistir.
Sonhar.
É bom demais.
Sorrir é muito bom. Querer é muito bom. Crescer é muito bom. Beijar é muito bom.
Piscar é muito bom. Viajar é muito bom. Voltar é muito bom. Sentir é muito bom.
Tocar é muito bom. Ouvir é muito bom. Falar é muito bom. Ver é muito bom.
Gritar é muito bom. Dormir é muito bom. Abraçar é muito bom. Ser é muito bom.
Desejar é muito bom. Chorar é muito bom. Respirar é muito bom. Fotografar é muito bom.
Atuar é muito bom. Conversar é muito bom. Lembrar é muito bom. Esquecer é muito bom.
Beber é muito bom. Voar é muito bom. Sumir é muito bom. Cair é muito bom.
Conhecer é muito bom.
Assistir é muito bom.
Escrever é muito bom.
Ajudar é muito bom.
Plantar, colher, construir, fazer, arar, soprar, cozinhar, jogar, debater.
Dividir, multiplicar, ler, ordenhar, acordar, nadar, pular. Defenestrar.
Abrir.
Fechar.
É bom demais.
Chover e ventar. Partir e quebrar.
Revelar.
Passear, confiar, compreender, se aquecer.
Esfriar.
Aplaudir.
Levantar.
Assistir.
Sonhar.
É bom demais.
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
Como eu não entendo o pesar
O céu fervilha em vermelho.
Acordei agora com uma má notícia e não consigo mais pregar os olhos. Minhas pernas não conseguiam se deitar, como loucas, queriam só correr. Prendi-as. Sentei-me. Parei para digerir.
Está sendo difícil para mim de engolir.
Não aprendi a lidar com perdas. Tenho vontade de levantar-me para gritar:
"Mas isso é injusto! Não pode, não deve ser assim. Tão cedo... tão rápido! E por um erro? Não pode, não pode..."
"Mas isso é injusto! Não pode, não deve ser assim. Tão cedo... tão rápido! E por um erro? Não pode, não pode..."
Dessa vez eu descobri. Não adianta gritar. Algumas coisas vem como ponto final. Elas não somem, apenas viram cicatrizes.
Aos 14 anos, meu pai se tatuou. Uma tatuagem horrorosa. Duas, na realidade, um escorpião e uma boca. Ele pode tirar a tatuagem. Mas ainda haverá uma marca em sua pele, de quando ele era jovem e desimpedido, e se marcou porque quis.
A tatuagem não é um ponto final, mas ilustra a ideia.
Minhas pernas estão um pouco mais relaxadas e o céu enegreceu.
Pontos finais trazem consigo lágrimas e saudades. Desamparo. Que são combatidos com abraços, acalantos e sorrisos, mas, principalmente, com palavras.
Outro ponto fraco meu: além de não lidar com perdas, não sou boa com palavras.
Mas entre meus braços você encontrará todo o carinho do mundo! Pode parecer cliché, mas te dou o meu silêncio como forma remédio. Ele é compreensível e confortável, escuta o debulhar do espaço e oferece atenção.
A má notícia me acordou e destruiu qualquer resquício de possibilidade de ninar.
Só consigo pensar em como confortar os mais feridos. Como? Se nem mesmo consigo confortar a mim, que só tem problemas com as pernas.
Não dou credibilidade às más notícias. Não consigo me convencer de sua existência.
Sei que vou levar tapas na cara.
Prefiro leva-los em minha ignorância ao abraçar no silêncio aqueles que creem e sofrem comigo.
Querido amigo, saiba que sempre estarei ao seu lado. O amor é imortal, assim como o passado. Guarde o que é bom e seja o melhor.
domingo, 8 de abril de 2012
Famintas Estrelas
Estrelas gostam de comer o brilho das lâmpadas.
Degustam das mais variadas intensidades, enchem-se de todo o clarão. Ficam satisfeitas e dormem.
O fulgor tem um gosto peculiar. Mistura-se com a canela e o açafrão fresco, mas nunca deixa de lado seu sabor azul. É de extrema delicadeza. Para apreciá-lo, é preciso alcançar um estado de espírito sublime. Por isso, as estrelas se fartam. Paladar singelo este que, nas horas escuras, clareia. Exato, preciso e meticuloso.
No vazio do universo, no espaço entre as lacunas, as estrelas jaziam. Esfomeadas, precisavam de mais brilho. Redondas, balofas, insaciáveis. E, assim, as estrelas cresciam.
Cresciam pois, inconscientemente, eram alimentadas pelo seu egoísmo. Estrelas desavisadas eram apagadas, desprovidas de seu clarão característico.
Não importava mais a cor ou a temperatura. Vermelhas, azuis, quentes, amarelas, mornas, verdes, frias e congeladas. Extintas.
O Céu começou a minguar. Entrava em um estado de abatimento constante. Sentia-se humilhado, nu. E em todo seu breu, não havia um único clarão para tirá-lo da vala em que se atirava. O Céu precisava de ajuda. O Céu precisava de estrelas.
Foi então que veio o Sol. Não era dos mais gordos, rechonchudo, entretanto, mas gostava de mimar o palato. O Sol era conhecido pela sua inconstância. Mas era porque não reconheciam sua sensibilidade.
Ele entendia a melancolia do Céu, apesar de não conter seu apetite. Mas o Sol brilhava pouco comparado a outras estrelas para acabar com tamanha depressão.
Dentre as estrelas, havia também seres turvos, seres escuros. Havia a Lua.
Lua que não reconhecia a sensibilidade do Sol. Que ignorava a tristeza do Céu. Que zombava da fome das estrelas. A Lua não sabia de nada. Mas tinha um tremendo sorriso, que brilhava mais do que qualquer coisa já vista por olhos impressionáveis.
Desprovido de todas suas defesas falsas, o Sol se apaixonou pela Lua. E por isso, abateu-se mais que o Céu. É que, a Lua não sabia, mas sempre que ela nascia, o Sol tinha que se pôr. Seus horários não batiam e viviam numa série de desencontros que partiam o coração iluminado do Sol.
Entre eles, havia a Terra.
(nesse universo melancólico, acaba que o instante oco vira vácuo e tudo engole. Bem vindo ao espaço misantrópico.)
Pois que a Terra também chorava. Na melhor das hipóteses, era só dor de barriga. Mas o Sol sabia que era mais do que isso, que era a sombra que a encobria. A Terra estava sem lâmpadas, e, assim, encolhia.
Em um dia mais negro que os outros, em um instante mais frívolo que os anteriores, o Sol abriu a boca. E em um jato ininterruptível, vomitou sua luz na Terra.
Parece asqueroso e sujo. Mas a Terra sorriu.
E a Terra brilhava tanto que chegou a cegar os tais olhos impressionáveis. E o brilho foi tanto que a Lua, num súbito ato desesperado, jogou-se na frente do Sol para diminuir a intensidade da luz.
Nesse instante, agora cheio e iluminado, eles se amaram. E as estrelas, comovidas, vomitaram suas luzes por aí, deixando o céu em um êxtase supremo.
quarta-feira, 14 de março de 2012
A voz
Começou como todas as coisas começam. Começou como o mundo começou.
Som. O poder da palavra tomando controle. Mas, além da palavra, o que começou foi a voz.
Apoderou-se de mim por inteiro, essa voz sem dona boca. Não precisava de imagem, não cheguei a sentir seu cheiro, seu sabor. Somente ouvidos. E depois que disparou a falar, vi que era voz bonita, perfumada, voz gostosa que escorre pela língua e enche a boca muda d'água. Foi amor à primeira voz.
Não posso mentir dessa vez. Nem para mim, nem para vocês. Às vezes digo a todos que me apaixonei, só para sair da mesmice. Às vezes, o digo para mim mesma, só para não ter que ficar com todos. E agora, admito: minto. Minto muito sobre isso porque, esse assunto, não gosto de dividir. Mas dessa vez não consigo. Me apaixonei por ti, voz.
Acho que pela primeira vez me apaixonei de verdade. Não estou me contendo dentro desta garrafa. É preciso consumir, escutar, obter. Quero possuir a voz que escuto, que sinto, que como. Só de ouvir me sinto pronta, graças a ela sou mulher feita.
Seu tom rouco e pontual, desleixado e destoante. Se um dia, qualquer dia, eu puder colocar a voz dentro da garrafa, ela quebra. A garrafa. Porque a voz tem uma imensidão tão grande que ocupa todos os espaços. Talvez a voz que me possua, e por isso que não consigo possuí-la.
A voz é buraco negro. Puxa toda a luz do redor para si. Não que precise disso tudo - ela não precisa de nada, é auto-suficiente. Mas acaba se tornando o centro das atenções, mesmo sem querer. É que, sem a voz, nós ficamos quebrados, e acabamos por querê-la inconscientemente, como ansiamos pelo oxigênio segundos antes de alcançar a superfície.
Antes dela, eu achava que funcionava bem. Que era completa e boa na medida do possível. Mas aí ela veio, avalanche, e me mostrou que eu era capaz de muito mais.
Perdoem-me pela tempestade, porém quando me apaixono, fico assim. Precisando de distruibuir por aí, pra mim já tem demais. Chover.
A voz é guarda-chuva, guarda-sol e balde. Não faz parte de mim, mas me criou.
É Criador. A voz é Deus.
Buscando os termos técnicos, essa é a locução que eu procurava. Poderia, até mesmo, tentar imitá-la. Entretanto, seria heresia. A voz tem, sim, suas características de estudo, mas guarda sua maior parte no lado transcendental. Ela sobe aos céus e deve ser entendida pela alma. Ao tentar entende-la pela razão, comete-se o maior crime: onde estava com a cabeça ao racionalizar o divino? É burrice e não adianta de nada, pois você não vai entender. Esqueça. A voz é sentir.
Fecho os olhos. Provo, novamente, os poderes do som. Vem sobre mim a boca mexendo. As pausas. A respiração. Consigo pintá-la lendo. Quero me transformar em voz para ser alguém melhor.
Quando a voz para, sou vazia. E sei que não posso ser cheia o tempo todo. Nem mesmo eu aguentaria a sobrecarga. Mas são nesses momentos em que eu quebro a embalagem que sei que estou a caminho de um lugar melhor
Som. O poder da palavra tomando controle. Mas, além da palavra, o que começou foi a voz.
Apoderou-se de mim por inteiro, essa voz sem dona boca. Não precisava de imagem, não cheguei a sentir seu cheiro, seu sabor. Somente ouvidos. E depois que disparou a falar, vi que era voz bonita, perfumada, voz gostosa que escorre pela língua e enche a boca muda d'água. Foi amor à primeira voz.
Não posso mentir dessa vez. Nem para mim, nem para vocês. Às vezes digo a todos que me apaixonei, só para sair da mesmice. Às vezes, o digo para mim mesma, só para não ter que ficar com todos. E agora, admito: minto. Minto muito sobre isso porque, esse assunto, não gosto de dividir. Mas dessa vez não consigo. Me apaixonei por ti, voz.
Acho que pela primeira vez me apaixonei de verdade. Não estou me contendo dentro desta garrafa. É preciso consumir, escutar, obter. Quero possuir a voz que escuto, que sinto, que como. Só de ouvir me sinto pronta, graças a ela sou mulher feita.
Seu tom rouco e pontual, desleixado e destoante. Se um dia, qualquer dia, eu puder colocar a voz dentro da garrafa, ela quebra. A garrafa. Porque a voz tem uma imensidão tão grande que ocupa todos os espaços. Talvez a voz que me possua, e por isso que não consigo possuí-la.
A voz é buraco negro. Puxa toda a luz do redor para si. Não que precise disso tudo - ela não precisa de nada, é auto-suficiente. Mas acaba se tornando o centro das atenções, mesmo sem querer. É que, sem a voz, nós ficamos quebrados, e acabamos por querê-la inconscientemente, como ansiamos pelo oxigênio segundos antes de alcançar a superfície.
Antes dela, eu achava que funcionava bem. Que era completa e boa na medida do possível. Mas aí ela veio, avalanche, e me mostrou que eu era capaz de muito mais.
Perdoem-me pela tempestade, porém quando me apaixono, fico assim. Precisando de distruibuir por aí, pra mim já tem demais. Chover.
A voz é guarda-chuva, guarda-sol e balde. Não faz parte de mim, mas me criou.
É Criador. A voz é Deus.
Buscando os termos técnicos, essa é a locução que eu procurava. Poderia, até mesmo, tentar imitá-la. Entretanto, seria heresia. A voz tem, sim, suas características de estudo, mas guarda sua maior parte no lado transcendental. Ela sobe aos céus e deve ser entendida pela alma. Ao tentar entende-la pela razão, comete-se o maior crime: onde estava com a cabeça ao racionalizar o divino? É burrice e não adianta de nada, pois você não vai entender. Esqueça. A voz é sentir.
Fecho os olhos. Provo, novamente, os poderes do som. Vem sobre mim a boca mexendo. As pausas. A respiração. Consigo pintá-la lendo. Quero me transformar em voz para ser alguém melhor.
Quando a voz para, sou vazia. E sei que não posso ser cheia o tempo todo. Nem mesmo eu aguentaria a sobrecarga. Mas são nesses momentos em que eu quebro a embalagem que sei que estou a caminho de um lugar melhor
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
O que não deve ser dito
A cada instante que passa, mais sei que somos seres feitos de mentiras e sedentos pela verdade.
Não há nada que doa mais que a verdade. A ferida que se abre e jorra o seu sangue rubi por todos os lados, sujando a sala de estar branca e o tapete persa. O nó que se forma na garganta e prende todo o seu ar, deixando a face roxa e desfigurada. A rosa que se despedaça em pétalas pálidas e mortas. A dor é imensa. E, ainda assim, precisamos dela como loucos.
Somos sádicos que se injetam de orgulho e não conseguem viver sem o sofrimento. Mentimos para dentro e para fora, mas quando se tratam de palavras que nos atingem, escolhemos sempre as verdadeiras.
Qual o seu nome, por exemplo? Quero dizer, o seu verdadeiro nome. Daquilo que você deveria ser chamado. Não contamos isso para as pessoas. Dizemos apenas: "Daniel".
Daniel. Que no fundo sabe que não é ninguém, mas continua andando por aí esfregando seu diploma em medicina na cara dos cidadãos do mundo e berrando aos quatro ventos: Eu sei das coisas! Enquanto, na verdade, não sabe de nada. Mas continua engolindo suas próprias mentiras, e ao mesmo tempo exigindo que, para ele, seja entregue a mais pura e letal dose de verdade.
Por um instante, a palavra me fugiu. Verdade. E nesse espaço de tempo em que uma lacuna em branco ocupou o lugar da verdade na minha cabeça, acabou ficando tatuado veneno. Porque heroína, da mais pura, mata.
Voltando ao Daniel. Ou a toda humanidade, como preferir.
Nós sabemos das coisas. É assustador, é inacreditável, e soa como uma mentira. Mas nós sabemos das coisas. Daquelas que nos interessam. Das que nos machucam, principalmente. Com um único olhar, já é possível detectar toda uma vida de traições. E, mesmo sabendo delas, mesmo quando elas nos corroem por dentro, nos magoam e entristecem, queremos que elas sejam ditas. Porque, de alguma forma, achamos que a palavra verdadeira vai deixar tudo mais simples. Teoricamente, a verdade faz bem. Mas não faz. E aí já não são somente nossas entranhas sendo corroídas. É o corpo inteiro. O seu sangue se misturando às lágrimas e escorrendo pelo chão.
Palavras são ferramentas de tortura frias e criadas pelo homem para manipular, seduzir, confundir, deleitar, constranger e matar.
Inventaram que a verdade é a única coisa a ser dita, decidiram que ela só faz bem. Uma novidade: não faz. Água faz bem, mas tente viver só dela. Não dá.
A mentira não é assim, tão inocente. Hoje em dia ela está tão presente e se faz tão necessária que acabou se tornando uma verdade com retoques. Só que não é.
Os conceitos estão errados, as ideias estão trocadas, e nós estamos tão confusos com as teclas dos nossos smartphones que acabamos nos contentando com qualquer coisa desde que escutemos aquilo que queremos escutar.
Queremos escutar tudo aquilo que dói e vem com uma trilha sonora dramática de fundo. Fomos criados assim, e ai de quem preferir o contrário.
Quando falamos a verdade, junto vem a dor. Uma dor gostosa, às vezes, se você gostar desse tipo de coisa, chicotes e algemas. E, de brinde, a cicatriz. Cuspa uma verdade e deixe cozer. Olhe novamente daqui alguns anos e me procure caso não haja cicatrizes.
Dói, também, a mentira. Mas ela pode não só doer. Ela pode tornar as coisas mais fáceis. Ou mais difíceis. Depende do nível em que você goste de jogar o seu jogo. Pode deixar uma ou outra coisa mais bonita. Certamente, mais interessante. Para fora, claro. Pois quando é dirigida para dentro, a mentira promete cair cheia de estragos.
Ao fazer nossos alicerces mentirosos acabamos construindo nossas bases com cimento barato. Sempre chega o momento da questão, em que não nos contentamos com as rachaduras e começamos a querer saber. Porque é assim? Porque está assim? Porque eu fiz assim?Os muros caem, as paredes racham, e os psiquiatras ganham o seu quinhão.
Algumas coisas não precisam ser ditas. E não dizemos. Para nós mesmos, deixamos de dizer muitas coisas. Para o mundo, então, nem se fala.
Assim, volto aos momentos em que, de joelhos, pedimos uma bofetada de verdade, mesmo sabendo o que está por vir. Não nos contentamos com as coisas não ditas. Nós precisamos de saber, de escutar e de sentir. Para, então, provar para nós mesmos que estamos vivos. E que apesar da mentira que somos, tem alguém aí que foi sincero na sua frente.
Não há nada que doa mais que a verdade. A ferida que se abre e jorra o seu sangue rubi por todos os lados, sujando a sala de estar branca e o tapete persa. O nó que se forma na garganta e prende todo o seu ar, deixando a face roxa e desfigurada. A rosa que se despedaça em pétalas pálidas e mortas. A dor é imensa. E, ainda assim, precisamos dela como loucos.
Somos sádicos que se injetam de orgulho e não conseguem viver sem o sofrimento. Mentimos para dentro e para fora, mas quando se tratam de palavras que nos atingem, escolhemos sempre as verdadeiras.
Qual o seu nome, por exemplo? Quero dizer, o seu verdadeiro nome. Daquilo que você deveria ser chamado. Não contamos isso para as pessoas. Dizemos apenas: "Daniel".
Daniel. Que no fundo sabe que não é ninguém, mas continua andando por aí esfregando seu diploma em medicina na cara dos cidadãos do mundo e berrando aos quatro ventos: Eu sei das coisas! Enquanto, na verdade, não sabe de nada. Mas continua engolindo suas próprias mentiras, e ao mesmo tempo exigindo que, para ele, seja entregue a mais pura e letal dose de verdade.
Por um instante, a palavra me fugiu. Verdade. E nesse espaço de tempo em que uma lacuna em branco ocupou o lugar da verdade na minha cabeça, acabou ficando tatuado veneno. Porque heroína, da mais pura, mata.
Voltando ao Daniel. Ou a toda humanidade, como preferir.
Nós sabemos das coisas. É assustador, é inacreditável, e soa como uma mentira. Mas nós sabemos das coisas. Daquelas que nos interessam. Das que nos machucam, principalmente. Com um único olhar, já é possível detectar toda uma vida de traições. E, mesmo sabendo delas, mesmo quando elas nos corroem por dentro, nos magoam e entristecem, queremos que elas sejam ditas. Porque, de alguma forma, achamos que a palavra verdadeira vai deixar tudo mais simples. Teoricamente, a verdade faz bem. Mas não faz. E aí já não são somente nossas entranhas sendo corroídas. É o corpo inteiro. O seu sangue se misturando às lágrimas e escorrendo pelo chão.
Palavras são ferramentas de tortura frias e criadas pelo homem para manipular, seduzir, confundir, deleitar, constranger e matar.
Inventaram que a verdade é a única coisa a ser dita, decidiram que ela só faz bem. Uma novidade: não faz. Água faz bem, mas tente viver só dela. Não dá.
A mentira não é assim, tão inocente. Hoje em dia ela está tão presente e se faz tão necessária que acabou se tornando uma verdade com retoques. Só que não é.
Os conceitos estão errados, as ideias estão trocadas, e nós estamos tão confusos com as teclas dos nossos smartphones que acabamos nos contentando com qualquer coisa desde que escutemos aquilo que queremos escutar.
Queremos escutar tudo aquilo que dói e vem com uma trilha sonora dramática de fundo. Fomos criados assim, e ai de quem preferir o contrário.
Quando falamos a verdade, junto vem a dor. Uma dor gostosa, às vezes, se você gostar desse tipo de coisa, chicotes e algemas. E, de brinde, a cicatriz. Cuspa uma verdade e deixe cozer. Olhe novamente daqui alguns anos e me procure caso não haja cicatrizes.
Dói, também, a mentira. Mas ela pode não só doer. Ela pode tornar as coisas mais fáceis. Ou mais difíceis. Depende do nível em que você goste de jogar o seu jogo. Pode deixar uma ou outra coisa mais bonita. Certamente, mais interessante. Para fora, claro. Pois quando é dirigida para dentro, a mentira promete cair cheia de estragos.
Ao fazer nossos alicerces mentirosos acabamos construindo nossas bases com cimento barato. Sempre chega o momento da questão, em que não nos contentamos com as rachaduras e começamos a querer saber. Porque é assim? Porque está assim? Porque eu fiz assim?Os muros caem, as paredes racham, e os psiquiatras ganham o seu quinhão.
Algumas coisas não precisam ser ditas. E não dizemos. Para nós mesmos, deixamos de dizer muitas coisas. Para o mundo, então, nem se fala.
Assim, volto aos momentos em que, de joelhos, pedimos uma bofetada de verdade, mesmo sabendo o que está por vir. Não nos contentamos com as coisas não ditas. Nós precisamos de saber, de escutar e de sentir. Para, então, provar para nós mesmos que estamos vivos. E que apesar da mentira que somos, tem alguém aí que foi sincero na sua frente.
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