"Você demorou um bocado."
"Demorei."
"Onde esteve?
Não, não responda. Não quero saber."
"Então não digo, mas não há motivos para se preocupar."
"Bom."
"Aconteceu algo?"
"Além da sua ausência, nada que eu tenha notado."
"Como?
Ah.
Pare com exageros. Sei bem como aproveita quando sumo."
"Cale a boca. Você não sabe de nada."
"Sei sim."
"Eu sofro."
"Sofre porque gosta de sofrer."
"Mais uma vez, cale a boca."
"Eu entendo sua cabeça melhor que você."
"E, ainda assim, não sabe me agradar."
"É que você muda muito."
"Você também. Já não te conheço mais."
"Pare com todo esse drama, pelo amor de Deus.
Tenho mais o que fazer."
"Vá, então. Suma de novo."
"Olha que eu vou."
"Vá."
"E não volto."
"Volta sim."
"Não tenha tanta certeza, meu bem."
"É que me ama demais."
"Quem?"
"Minha mãe!
Como quem?
Você, claro."
"Dessa vez não volto, juro. Encontrei pr'onde ir."
"Não há lugar melhor que aqui."
"Há, sim."
"Sua cabeça? Poupe-me."
"Então é isso.
Começo a me abrir e você se vira para ir embora."
"Não aguento mais baboseira poética."
"Baboseira poética é minha alma.
Sabe muito bem como sou todo feito disso."
"Fique com ela para si.
Não me interessa."
"Prefere a vida de um casal mudo?"
"Mudo não.
Eu canto."
"Mas não se abre."
"Não."
"Pois cansei-me disso."
"Injusto, você! Sabe o quanto é difícil para mim."
"Para mim não é."
"Então fale."
"Então escute:
Eu me vou."
"Estou escutando! Porque se vira?"
"Você muda muito."
"Não controlo isso."
"Nem eu."
"Apenas conviva.
Veja-me como uma pessoa nova."
"E se acontecer d'eu preferir a antiga?"
"Não compare o incomparável."
"Pare de mudar de assunto.
Ainda quero saber o que aconteceu em minha ausência."
"Já falei que nada.
Sem você aqui, tenho que ficar comigo."
"Você não se aguenta."
"Eu não me aguento."
"Venha cá.
Aguento esse pedaço por você."
"E esse?"
"E esse."
"É muita coisa pra mim.
Eu finjo que aguento, mas só para manter a pose."
"Mantê-la até pra mim?!
Não precisa!"
"Precisa."
"Porque?"
"Não sei se vai se oferecer amanhã."
"Para que?"
"Catar meus cacos.
Me amar.
Não sou só eu que mudo.
É tudo.
O som do vento.
O sabor da maçã.
Como vou saber me portar nesse mundo perecível?"
"Não saberá.
Não sei se poderá confiar em mim sempre."
"Como você não confia em mim."
"Mantenho um pé atrás para não cair."
"Já eu, me entrego.
Acabo vivendo mais que você, acredito."
"Eu viajo."
"Eu também."
"Na cabeça? Pare com isso."
"Foi você quem começou."
"Eu me entendo."
"Não quero entender. Pare com essa sua psicologia barata."
"Você vai se afogar em incoerência."
"Salve-me.
Fique."
"Para afogar-me em você?
Não."
"Não.
Juro."
"Jura?"
"É só me trancar.
Me dar limites.
A liberdade é sufocante."
"É uma saída."
"Sei que não vive sem mim.
Mesmo se viaja."
"Não vivo."
"Então me aguente."
"Aguento.
Se você me aguentar."
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quinta-feira, 24 de maio de 2012
quarta-feira, 14 de março de 2012
A voz
Começou como todas as coisas começam. Começou como o mundo começou.
Som. O poder da palavra tomando controle. Mas, além da palavra, o que começou foi a voz.
Apoderou-se de mim por inteiro, essa voz sem dona boca. Não precisava de imagem, não cheguei a sentir seu cheiro, seu sabor. Somente ouvidos. E depois que disparou a falar, vi que era voz bonita, perfumada, voz gostosa que escorre pela língua e enche a boca muda d'água. Foi amor à primeira voz.
Não posso mentir dessa vez. Nem para mim, nem para vocês. Às vezes digo a todos que me apaixonei, só para sair da mesmice. Às vezes, o digo para mim mesma, só para não ter que ficar com todos. E agora, admito: minto. Minto muito sobre isso porque, esse assunto, não gosto de dividir. Mas dessa vez não consigo. Me apaixonei por ti, voz.
Acho que pela primeira vez me apaixonei de verdade. Não estou me contendo dentro desta garrafa. É preciso consumir, escutar, obter. Quero possuir a voz que escuto, que sinto, que como. Só de ouvir me sinto pronta, graças a ela sou mulher feita.
Seu tom rouco e pontual, desleixado e destoante. Se um dia, qualquer dia, eu puder colocar a voz dentro da garrafa, ela quebra. A garrafa. Porque a voz tem uma imensidão tão grande que ocupa todos os espaços. Talvez a voz que me possua, e por isso que não consigo possuí-la.
A voz é buraco negro. Puxa toda a luz do redor para si. Não que precise disso tudo - ela não precisa de nada, é auto-suficiente. Mas acaba se tornando o centro das atenções, mesmo sem querer. É que, sem a voz, nós ficamos quebrados, e acabamos por querê-la inconscientemente, como ansiamos pelo oxigênio segundos antes de alcançar a superfície.
Antes dela, eu achava que funcionava bem. Que era completa e boa na medida do possível. Mas aí ela veio, avalanche, e me mostrou que eu era capaz de muito mais.
Perdoem-me pela tempestade, porém quando me apaixono, fico assim. Precisando de distruibuir por aí, pra mim já tem demais. Chover.
A voz é guarda-chuva, guarda-sol e balde. Não faz parte de mim, mas me criou.
É Criador. A voz é Deus.
Buscando os termos técnicos, essa é a locução que eu procurava. Poderia, até mesmo, tentar imitá-la. Entretanto, seria heresia. A voz tem, sim, suas características de estudo, mas guarda sua maior parte no lado transcendental. Ela sobe aos céus e deve ser entendida pela alma. Ao tentar entende-la pela razão, comete-se o maior crime: onde estava com a cabeça ao racionalizar o divino? É burrice e não adianta de nada, pois você não vai entender. Esqueça. A voz é sentir.
Fecho os olhos. Provo, novamente, os poderes do som. Vem sobre mim a boca mexendo. As pausas. A respiração. Consigo pintá-la lendo. Quero me transformar em voz para ser alguém melhor.
Quando a voz para, sou vazia. E sei que não posso ser cheia o tempo todo. Nem mesmo eu aguentaria a sobrecarga. Mas são nesses momentos em que eu quebro a embalagem que sei que estou a caminho de um lugar melhor
Som. O poder da palavra tomando controle. Mas, além da palavra, o que começou foi a voz.
Apoderou-se de mim por inteiro, essa voz sem dona boca. Não precisava de imagem, não cheguei a sentir seu cheiro, seu sabor. Somente ouvidos. E depois que disparou a falar, vi que era voz bonita, perfumada, voz gostosa que escorre pela língua e enche a boca muda d'água. Foi amor à primeira voz.
Não posso mentir dessa vez. Nem para mim, nem para vocês. Às vezes digo a todos que me apaixonei, só para sair da mesmice. Às vezes, o digo para mim mesma, só para não ter que ficar com todos. E agora, admito: minto. Minto muito sobre isso porque, esse assunto, não gosto de dividir. Mas dessa vez não consigo. Me apaixonei por ti, voz.
Acho que pela primeira vez me apaixonei de verdade. Não estou me contendo dentro desta garrafa. É preciso consumir, escutar, obter. Quero possuir a voz que escuto, que sinto, que como. Só de ouvir me sinto pronta, graças a ela sou mulher feita.
Seu tom rouco e pontual, desleixado e destoante. Se um dia, qualquer dia, eu puder colocar a voz dentro da garrafa, ela quebra. A garrafa. Porque a voz tem uma imensidão tão grande que ocupa todos os espaços. Talvez a voz que me possua, e por isso que não consigo possuí-la.
A voz é buraco negro. Puxa toda a luz do redor para si. Não que precise disso tudo - ela não precisa de nada, é auto-suficiente. Mas acaba se tornando o centro das atenções, mesmo sem querer. É que, sem a voz, nós ficamos quebrados, e acabamos por querê-la inconscientemente, como ansiamos pelo oxigênio segundos antes de alcançar a superfície.
Antes dela, eu achava que funcionava bem. Que era completa e boa na medida do possível. Mas aí ela veio, avalanche, e me mostrou que eu era capaz de muito mais.
Perdoem-me pela tempestade, porém quando me apaixono, fico assim. Precisando de distruibuir por aí, pra mim já tem demais. Chover.
A voz é guarda-chuva, guarda-sol e balde. Não faz parte de mim, mas me criou.
É Criador. A voz é Deus.
Buscando os termos técnicos, essa é a locução que eu procurava. Poderia, até mesmo, tentar imitá-la. Entretanto, seria heresia. A voz tem, sim, suas características de estudo, mas guarda sua maior parte no lado transcendental. Ela sobe aos céus e deve ser entendida pela alma. Ao tentar entende-la pela razão, comete-se o maior crime: onde estava com a cabeça ao racionalizar o divino? É burrice e não adianta de nada, pois você não vai entender. Esqueça. A voz é sentir.
Fecho os olhos. Provo, novamente, os poderes do som. Vem sobre mim a boca mexendo. As pausas. A respiração. Consigo pintá-la lendo. Quero me transformar em voz para ser alguém melhor.
Quando a voz para, sou vazia. E sei que não posso ser cheia o tempo todo. Nem mesmo eu aguentaria a sobrecarga. Mas são nesses momentos em que eu quebro a embalagem que sei que estou a caminho de um lugar melhor
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Eu quero
Tudo de mal pra você. Entende? (Risos). Não, não, não se preocupe. Não quero tudo de mal pra você. Não quero que você... morra, por exemplo. Mas é que também não vou ficar desejando o bem das pessoas assim, a torto e a direito. Tenho que desejar o meu bem antes! (Risos).
Eu quero vomitar no passado. No nosso passado. E na sua cara e na sua comida. (Pausa curta enquanto dá um gole em seu copo de uísque). Eu também quero rasgar todos os papéis que eu gastei nesse meio tempo. E depois de rasga-los, vou manda-los para a reciclagem! Sei bem como hoje em dia tem toda essa moda de ecologia. Ecobag. Te desejo uma. (Abre um sorriso). Desejo uma com a alça rasgada. Vamos ver como você vai fazer compras!
Também quero coisas boas pra mim. Acho que desejar o mal pra você faz bem. Porque desejar o bem não tava ajudando em nada. Pra mim, eu quero é mais uísque. (Pausa longa enquanto serve-se de mais uma dose e três pedras de gelo). Depois do uísque, quero um homem de verdade. Não! Antes do homem, eu quero é música. A música de verdade, igual o homem. E depois, uma dança. Agora, com o homem.
Eu quero os seus pés tortos para que nunca possa dançar. Nunca. Quem dança os males espanta. E males espantados, por enquanto, só quero os meus. (Pausa longa).
Por mim, nem falava mais contigo. Mas nessa vida de casualidades, cheia de encontros e desencontros, temos que conviver sociavelmente. Por isso, vou é gastar toda minha grosseria e sarcasmo quando tiver que me dirigir a você. Como se eu guardasse um gosto amargo na boca, e só o cuspisse em sua direção. (Cospe).
Mas eu não sou assim. Um animal. (Risos). A evolução corre em minhas veias! Venha, eu posso te oferecer um pouco de cicuta... perdão, erro meu! Uísque! (Risos). Mas a vontade de colocar o veneno, essa eu sentiria.
Que mais posso desejar de mal para você? Acho que só você mesmo. (Abre um sorriso). Só de viver dentro dessa sua cabecinha deve ser o inferno.
Minha boa educação me segura. Se não, já teria partido pra cima de você carregada de macumba e assombração. (Dá um gole em seu copo).
É isso. Fique consigo. E meu trabalho está feito. Não quero mais sujar minhas mãos com você.(Levanta-se e vira as costas, com o copo em sua mão).
Eu quero vomitar no passado. No nosso passado. E na sua cara e na sua comida. (Pausa curta enquanto dá um gole em seu copo de uísque). Eu também quero rasgar todos os papéis que eu gastei nesse meio tempo. E depois de rasga-los, vou manda-los para a reciclagem! Sei bem como hoje em dia tem toda essa moda de ecologia. Ecobag. Te desejo uma. (Abre um sorriso). Desejo uma com a alça rasgada. Vamos ver como você vai fazer compras!
Também quero coisas boas pra mim. Acho que desejar o mal pra você faz bem. Porque desejar o bem não tava ajudando em nada. Pra mim, eu quero é mais uísque. (Pausa longa enquanto serve-se de mais uma dose e três pedras de gelo). Depois do uísque, quero um homem de verdade. Não! Antes do homem, eu quero é música. A música de verdade, igual o homem. E depois, uma dança. Agora, com o homem.
Eu quero os seus pés tortos para que nunca possa dançar. Nunca. Quem dança os males espanta. E males espantados, por enquanto, só quero os meus. (Pausa longa).
Por mim, nem falava mais contigo. Mas nessa vida de casualidades, cheia de encontros e desencontros, temos que conviver sociavelmente. Por isso, vou é gastar toda minha grosseria e sarcasmo quando tiver que me dirigir a você. Como se eu guardasse um gosto amargo na boca, e só o cuspisse em sua direção. (Cospe).
Mas eu não sou assim. Um animal. (Risos). A evolução corre em minhas veias! Venha, eu posso te oferecer um pouco de cicuta... perdão, erro meu! Uísque! (Risos). Mas a vontade de colocar o veneno, essa eu sentiria.
Que mais posso desejar de mal para você? Acho que só você mesmo. (Abre um sorriso). Só de viver dentro dessa sua cabecinha deve ser o inferno.
Minha boa educação me segura. Se não, já teria partido pra cima de você carregada de macumba e assombração. (Dá um gole em seu copo).
É isso. Fique consigo. E meu trabalho está feito. Não quero mais sujar minhas mãos com você.(Levanta-se e vira as costas, com o copo em sua mão).
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