sexta-feira, 8 de março de 2013

Metamorfose


Virei tempestade.
Virei buraco em tronco de árvore.
Virei tijolo afundando no poço.
Virei pernas de gelatina.
Virei frio na espinha.
Virei sorriso ocasional.
Virei espera por demora.
Virei saudades do nãosei.
Virei abraço no invisível.
Virei olhar bobo perdido.
Virei únicoassuntonamesadobar.
Virei únicosobrequemquerofalar.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Segunda-feira

O céu está lindo, eu disse.
E em direção ao céu eu segui.
Enxergava pouco, nuvens puxando pr'um marromvermelhocaramelo, e a sombra de um cajueiro, negro, negro, negro.

Nessa hora, percebi que precisava ir. Ir, não sei em que direção, qualquer uma, alguma, a primeira que aparecer. Pego o primeiro trem que passar. E aí vou.
Vou. E vou sem medo algum, largo tudo para trás, tudo, largo bolsa, travesseiro, escova de dentes.
Largo mão, braço, cotovelo.
João, Maria, e o Paulo Henrique dos Reis. Também largo.
Vou sem passagem e provisões, sem futuro, só o furo na sola do sapato, planejamento, não, seguindo o rumo das estrelas, das camélias, e das marcas de pneu do seu carro sem ar condicionado.
Vou de corpo e levo a alma. Vou agora, de supetão, tiro no escuro, pulo no abismo. Pé no estribo.
Vem comigo?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Temporal

Surgiu assim
-PLIM!-
que nem uma gota safada,
maldita, solitária,
escapulindo (indo, vindo) do céu.

Cai discreta,
molha a terra,
e vira tempestade
(que mais que molha: arde!)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Cinturão

Língua
no
(sorri) dente
espaço
entre
seu lábio
e o mundo
INTEIRO
que você decidiu engolir

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Eu-setembro

Gosto de te ver. De te olhar. De ter com esses olhos teus, soníferos e distantes.
Olhos que me criaram e moldam.
Há tempos que não sinto saudade assim. Parece sofrimento pedante. Mas meu tronco eu sinto oco como o daquele velho ipê devorado por famintos cupins.
O ipê do velho. Parado sempre à porta de sua casa, na rua x, transversal à minha ladeira cotidiana. O ipê do velho nunca se atreveu a entrar.
Nos dias mais devassos de setembro ele escolhia florescer e a rua se coloria em luxúria. Seu tesão era amarelo. Nesses dias, o velho, que velha já não tinha mais, amava.
Por uma semana, sua casa com o muro de cimento vermelho e janelas lacrimejantes adquiria a companhia do mundo inteiro e virava museu. Virava estádio de futebol, cinema. Virava festa. Virava sol.
Quando ipê floresce, é igual a amor que assusta. Dura dois, três dias grande, e depois as flores vão caindo, caindo. Até os galhos esvaziarem e não sobrar nada além de lembrança boa e estranha, pisoteada no chão.
(Dizem que, se você salvar uma flor suicida de ipê antes que ela, louca, se estatele no chão, é sorte por uma vida inteira.)
Terror das casas de avó e armários de orvalho. Pequenos seres loucos, demônios microbiais que odeiam o sólido, o maciço, e têm uma fome inesgotável. Barriga de cupim é mais vazia que tronco meu morto de saudade. Fome de cupim é mais devastadora que despedida inevitável.
Veio então uma família azeda, de seis ou sete dos piores cupins. E tudo começou a desabar. Ou pelo menos o muro vermelho da frente.
Já faziam três setembros que o velho se dera varrendo as floresamores caídas e juntando em uma pilha de luz para as crianças brincarem. Nesse setembro, não varreu. Tímido, o ipê não se permitiu a amanhecer. Ficou só noite, e nada caiu no chão para o velho limpar.
A preocupação veio mas, temendo um diagnóstico, não chamou especialista. Já passara por experiência assim, e não podia arriscar o coração que já perdia intensidade. O velho sofria.
Passaram dois meses, três. O ipê agora lembrava a velha. Casca fina, cor cinzenta, sorriso murcho. Vez ou outra, um sussurro fraco. "Vou ficar bem."
Chegou janeiro, trazendo chuva e sal. Choveu o velho. As janelas tsunaminaram ao ver escorrer vermelho no chão. Blocos de coágulo espalhados pela rua, sob o corpo oco, devorado até a alma, que jazia, pela primeira vez, tentando entrar na casa.
A limpeza desse dia foi mais dolorosa do que o adeus anterior. Primeiro, retiraram o corpo. Depois, arrancaram as raízes e cimentaram o chão. Nada mais iria florescer ali. Jogaram o muro fora, todo, e construíram um maior. Dessa vez o velho nem se atreveu a pintar. Deixou o muro lá, com cor de solidão.
Passaram dois meses, três. O velho agora lembrava o ipê, mas ao contrário. Casca grossa, tronco cheio. O velho se entupiu de desgosto.
Chegou um dia em que o muro tomou conta. As janelas, opacas, fecharam-se pela última vez.
Sem o ipê, o velho não aguentou. Foi suicídio por afogamento em lágrimas.
Tronco de ipê vazio sou eu, agora. Sem entender o por quê de estar só, agora, se você ainda está aqui. Tentei comer duas uvas, três. Nem maduras estavam. O vazio não era fome.
Vazio inunda e sente mais que cheio. Vazio tomou conta de mim, coração de ipê deglutido por cupins.
Eu estou vazia assim, e só seus olhos para fazer dormir essa vontade de desmoronar que habita o ipê-eu.

sábado, 24 de novembro de 2012

Criação Conjunta III (ou Lu)

(por Zélia Bromélia e Beau de Longe)

A pessoa é tão chata
(plana)
que some.

Como a linha do horizonte que se perde no furo da agulha e cega o nó do seu ponto cruz

Vai pelos cantos em silêncio
não se faz de mais
nem de menos.
Se faz só de um sorriso aqui,
um comentário ali...
Tudo com pouco sal.

Sem pimenta.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Sopro

É uma pena
que se soltou
e caiu.

Da asa batendo contra o vento norte
no céu rosado
d'um dia sem cor.

Escorreu pelos ares
leve como uma pluma.
(Ou seria então
leve como uma pena?)

Sem ritmo
no seu tempo
a
pena
se
foi